2 de junho de 2012

encontro 2012

Raul viana

Itoculo

Este ano o Encontro do Grupo Internacional Espiritano de Moçambique (GIEM) foi na Província de Manica. No dia 20 de maio os confrades de Itoculo e Nampula viajaram até Inyazónia. Aí pernoitamos e no dia seguinte partimos todos juntos para Marera, centro diocesano do Chimoio, para fazer o nosso retiro anual.

Depois de nos alojarmos, almoçamos e às 15h iniciamos o nosso tempo e recolhimento orientado pelo P. Theo van Zoggel, da Congregação dos Sagrados Corações. Centrados na figura de Jesus amigo da vida, judeu de nascimento, humano como nós, missionário sempre em caminho, leigo comprometido com o anúncio do Reino, homem livre e libertador… parámos, refletimos, rezámos e celebrámos. Um tempo para recarregar baterias.

No sábado dia 26 terminámos o nosso tempo de silêncio e recolhimento e voltámos a Inyazónia, de onde fomos participar na Vigília de Pentecostes em Catandica. No domingo, dia 27 de maio, dia de Pentecostes, participámos todos juntos na celebração aniversariante da nossa Congregação que Poullart des Places havia iniciado, também em dia de Pentecostes, mas a 309 anos atrás, em Paris. Uma feliz coincidência, que foi o motivo principal do nosso encontro de 2012.

Na segunda-feira, dia 28, encontrámo-nos às 8h para definir o horário e o programa dos dias seguintes. O dia ficou preenchido pela reunião do Conselho do GIEM, sendo que os restantes confrades ficaram com dia livre.

A terça-feira ficou preenchida com o tema de conhecimento básico e reflexão acerca dos projetos de desenvolvimento. Um tema apresentado pelo Damasceno e Ronan que nos ajudaram a ver como gerir metodicamente um projeto do género. Foi uma formação útil que nos permitiu a aprendizagem de técnicas que realmente funcionam, a familiarização com terminologia técnica e a compreensão daquilo que as Instituições doadores pretendem.

Para melhor compreender o assunto foram abordadas algumas entidades doadoras e o modo como elas funcionam, tais como o CESS, Kibanda, Misean Cara, NLW, Missio, RTE, Solsef, etc… De facto, a nossa atividade missionária inclui também esta dimensão de desenvolvimento global para as quais algumas organizações estão orientadas, e com as quais devemos solicitar ajuda e colaboração.

O dia terminou com a eucaristia e o jantar na casa das irmãs do Coração de Maria em Inyazónia, a quem agradecemos o convite realizado. A manhã do dia seguinte ficou preenchida pela abordagem direta e estudo do Instrumento de Trabalho do nosso Capítulo Geral de Bagamoyo 2012. Várias ideias foram refletidas e que serão desenvolvidas no decorrer do mesmo já no mês de junho.

A tarde deste último dia foi dedicada a assuntos de autossustentabilidade do GIEM e a assuntos de ordem interna a todos os membros do Grupo, tais como o tempo de férias de cada confrade e a realização do Conselho Alargado de 2013.

Por fim, concluímos o nosso encontro agradecendo o acolhimento recebido e a comunhão alcançada. Uma palavra final foi dirigida ao Ronan que está de partida para a Irlanda onde irá permanecer um ano em reflexão pessoal, e a quem desejamos um tempo fecundo de refontalização, garantindo-lhe a nossa oração e comunhão.

Depois da Eucaristia conclusiva e do barbecue fraternal, na madrugado do dia 31 de maio retomamos o caminho para as nossas casas, percorrendo mais de 1200km que distanciam Inyazónia de Itoculo.

19 de maio de 2012

cultura macua
alguns aspetos negativos

Raul Viana
Itoculo

Numa das exposições anteriores falávamos dos aspetos positivos da cultura macua, os quais devemos sempre considerar e potenciar. Mas, como acontece em qualquer sociedade, há a outra face da moeda, a parte negativa, aquela que é para nós um desafio pastoral. No plano religioso, familiar-social e económico não faltam exemplos que merecem ser purificados e transformados. Vejamos alguns deles:

Dualismo (culto cristão e culto tradicional):

Muitos cristãos macuas (catecúmenos e batizados) vivem num constante dualismo religioso. Estão divididos entre a fé cristã e a religião tradicional. Por um lado, ainda vivem agarrados ao culto dos antepassados onde rezam e fazem as cerimónias tradicionais (makheia). Por outro, entram na capela para rezar cada domingos escutando a Palavra de Deus que convida ao verdadeiro seguimento de Jesus. Estão divididos entre a fé em Jesus Cristo e a crença no adivinho-curandeiro. Apesar de já haver alguns anos de presença e evangelização cristã, parece que o Evangelho ainda está longe de ser integrado na cultura, manifestando-se apenas uma vivência exterior, que se expressa pela frequência e receção dos sacramentos. Na verdade, entre os cristãos parece que às vezes se acredita mais nos adivinhos do que em Cristo.

Passividade:

Se a parte pacífica é um aspeto positivo, já a passividade se considera como negativo. E de facto, diante de um problema ou dificuldade com uma entidade superior, habitualmente os macuas não são capazes de reivindicar os seus direitos e contrapor à injustiça de que estão sendo vítimas. Isto acontece por medo e porque lhes ensinaram que não se deve dizer «não» a uma entidade superior. Para confirmar tudo isto basta recordar o provérbio do «sim, senhor», no qual se afirma que «ao mucunha (estrangeiro-patrão) nunca se diz não».

Casamento precoce:

No meio social onde nos encontramos facilmente encontramos rapazes e raparigas com 14 e 15 anos carregando a responsabilidade pais e mães de família. Mesmo sem o serem de verdade, pois física e corporalmente apresentam sinais de adulto, mas a sua mentalidade e estruturação pessoal ainda não estão suficientemente maduros. Por sua vez, isto provoca muitos males a todos os níveis: primeiro para a criança que vai nascer e que não terá os cuidados necessários para a sua sobrevivência ou, pior ainda, quando acontece aborto provocado; depois para a própria mãe que de imediato tem de abandonar a escola e outras formações para cuidar da criança; por fim, o pai, que sendo ainda jovem, muitas vezes não é responsabilizado pela criança gerada e vive sem valores. Podemos dizer que os ensinamentos familiares e tradicionais, a interioridade e isolamento, a falta de formação e compromisso pessoal, em muitos casos, são geradores de todo este modo de viver.


Mentalidade do mínimo possível:

Se o acolhimento é um elemento positivo na cultura macua, o abuso do mesmo por parte de alguns familiares torna-se prejudicial. Não raro acontece quando determinado membro da família obteve abundantes rendimentos agrícolas devido ao seu esforço e organização pessoal, de imediato outro familiar, que vive na penúria por descuido ou preguiça, se vê no direito de hospedar-se na casa daquele que possui bens alimentares até que a fonte se esgote. Isto cria uma mentalidade de que não interessa produzir muito, nem possuir muita riqueza, para não ser incomodado por outros familiares que a tradição obriga a acolher. Ou seja, parece que estamos num meio que se pauta pelo mínimo desejável, a fasquia baixa que unicamente garante a continuidade da pobreza e muitas vezes da miséria. Isto agrava-se quando se introduzem adivinhos e feiticeiros que apenas protegem os malandros e acusam e exploram os trabalhadores.

4 de maio de 2012

experiência missionária
entre os macuas


Vincent Ntrie-Akpabi
Itoculo


Eu sou Vincent Ntrie-Akpabi C.S.Sp. estagiário e natural do Gana. Cheguei a Moçambique no dia 16 de Setembro de 2010. Depois de dois meses de aprendizagem da língua portuguesa na cidade de Beira, cheguei à paróquia de Itoculo na diocese de Nacala (onde vivo com três confrades) para iniciar a minha experiência pastoral. Antes de sair da minha terra para Moçambique, estava absorvido com muitas perguntas: como vou sobreviver numa nova cultura, com novas línguas, com novos confrades, etc…? Mas quando refletia nestas questões fundamentais, lembrei-me de uma frase dos escritos de Papa João XXIII que diz: “observa tudo, tolera bastante, corrige um pouco.” Este conselho, numa situação como a minha, tem sido o princípio orientador que me guia desde que cheguei a Moçambique, também porque o estágio missionário é fundamentalmente um período de observação e de experiência.


Depois de algum tempo de observação e adaptação, onde também participei num curso de inculturação durante um mês, comecei a colaborar nalgumas áreas de atividades pastorais e comunitárias. Na paróquia trabalho com os animadores da comunicação social e também na organização do boletim paroquial Yosef Owarya, que sai cada dois meses para dar informações e notícias sobre nossa paróquia. Trabalho no cartório fazendo o registo dos batismos, renovação e preparação das novas certidões e cartões de batismos e matrimónios. Dedico também algum tempo a dar aulas de explicações de língua inglesa às meninas no lar Eugenia Caps. Trabalho também na biblioteca. Na comunidade sou responsável da machamba e dos trabalhadores. Além destes trabalhos, tenho tempo para socializar com os jovens, especialmente nos jogos de futebol, que é também uma grande oportunidade de entender melhor alguns aspetos da cultura local.



A nossa paróquia tem 77 comunidades e para servir todas elas até pode parecer muito aborrecido. Mas nunca senti o peso do meu trabalho. Temos uma boa organização das atividades pastorais. Entre a equipa missionária há colaboração muito unida, facilitando a comunhão, trabalhando juntos e promovendo a solidariedade. A vida comunitária é uma maravilha, vivendo com espírito de pensar e atuar juntos, flexibilidade, aceitação e valorização mútuas, fundados no espírito de oração, no amor e na benevolência gratuita. Tudo isto porque o verdadeiro testemunho de Cristo depende da qualidade da nossa comunhão com Deus e com os irmãos e a fidelidade aos nossos compromissos religiosos – verdadeiros seguidores de Cristo.


A minha experiência aqui é uma realidade muito diferente do que pensava, mas ao mesmo tempo muito boa de ser vivida. No contato com o povo o que mais me impressiona é a sua riqueza de valores como a família, a solidariedade e a hospitalidade. Testemunhar Cristo às pessoas que, apesar da pobreza material, estão sempre disponíveis, são simples e respeitadoras, humildes e com vontade de aprender, e sempre têm um sorriso de contentamento, faz-me crescer na fé e na esperança, e também reaviva em mim o espírito da simplicidade, da humildade e da disponibilidade. A minha experiência pastoral em Moçambique não é tempo perdido nem lamentável mas é único e precioso. Eu tenho de confessar que tive mais coisas a receber do que a dar.


Aprecio e admiro muito a missão espiritana em Moçambique, especialmente Itoculo onde vivo. A missão aqui pode parecer bastante difícil com poucos frutos à vista, mas acredito que é uma missão promissora para a Igreja e para os Espiritanos. Aproveito esta oportunidade para desejar a todos uma boa e frutífera missão e especialmente aos espiritanos em Moçambique. Força e coragem!

22 de abril de 2012

a história da nossa igreja
Diocese de Nacala,
Paróquia de Itoculo,
Região de Djipwi,
Zona de Cristo Rei,
Comunidade de Havara.

Primeiramente vamos agradecer o nosso padre por causa de presidir neste dia 8 de abril de 2012, para fazer a festa do baptismo, reunida por 7 comunidades aqui de Havara.

A partir de 2001 nunca existiu festa como hoje. Nós de Havara gostamos de apear para noutras comunidades para conseguir o baptismo, assim como casamento canónico. Mas hoje 8 de abril já temos aqui a nossa igreja.

Os antigos desta zona nunca tinham igreja neste círculo. Rezavam em Santa Maria Turra. Então o órgão da povoação de Havara foi pedir uma igreja para construir neste recinto. A nossa igreja foi criada com o padre Gino no dia 13 de agosto de 1984. Em 1986 entrou a guerra da FRELIMO e RENAMO. Fomos recuados e fomos construir a nossa igreja no lado Narrupe. Lá rezávamos bem e tínhamos machambas e outras coisas.

Quando acabou a luta, voltamos para cá e construímos a nossa igreja Santa Teresa 15 de outubro. Nessa altura éramos mandados em Thamela. Aos poucos anos virámos a nossa porta para ser orientada na zona de Cristo-Rei.

Entraram 6 anciões. O antigo morreu vítima de doença. O que temos neste momento é repetente. Agradecemos muito porque o nosso animador quando continuou o seu ministério organizou uma ideia para melhorar a nossa igreja. Vamos dar um grande abraço ao nosso ancião.

Inauguração

Em 2011 o nosso ancião junto com os conselheiros fizeram uma conferência de maneira como construir nova igreja. No diálogo aprovou o resumo que diz: «cada pessoa tirar 200mt». Nós os cristãos de Havara gostamos imenso da contribuição no valor combinado. No meio da contribuição começamos a construir. No dia da maticação, era no tempo do verão, não havia água suficiente, mas o Espírito Santo estava connosco. No período de 14h foram concluídos. Vieram 85 pessoas. Os jovens entraram no bosque e conseguiram 50 barrotes de 4 metros. Lá no mato ninguém recebia dinheiro. O nosso ancião levou o dinheiro para a paróquia e foi dado ao padre para comprar chapas de zinco. Então chamamos o nosso mestre para telhar a nossa igreja e foi concluída em 3 dias. A nossa igreja entrou 45 chapas, cada chapa custava 250mt, e 5 kilos de pregos, cada kilo de 100mt. A partir do início até na finalização mataram 12 galinhas e 25kg de farinha celeste. De chapas até pregos gastamos 11.750mt. Temos 1 hectare de algodão.
Hoje é dia de inauguração, todos vamos ficar alegremente: papás vamos aplaudir, mamãs tocar ilulu e jovens canções de animação, porque Santa Teresa Havara cresceu. Estávamos na escuridão, a luz do Senhor nos iluminou.

8/4/2012
Visto por ancião, Bonifácio António Mesquita

11 de março de 2012

cultura macua
pontos positivos

Estamos sempre a aprender. Mesmo quando o assunto se repete, há sempre uma perspetiva nova que se descobre e que chama a atenção. É assim também com a vida missionária nesta cultura macua onde nos encontramos e onde cada dia descobrimos coisas novas. Uma partilha fraterna do professor Alberto Viegas, um macua de raiz, faz um resumo dos aspetos positivos da sua cultura que partilhamos aqui.

Cultura do respeito
Respeito aos pais, aos mais velhos, aos chefes e outros dignitários da comunidade, aos vizinhos, aos conhecidos ou estranhos. Por este motivo não tratamos por «tu» o indivíduo que não seja da nossa idade e que não tenha sido nosso condiscípulo nos ritos de iniciação sociais para a vida adulta. Até entre marido e esposa não existe o tratamento por «tu».

Mesmo uma criança que não seja nossa ou muito conhecida de nós, nunca é tratada por «tu», para incutir nela o hábito de tratar os outros com respeito.

Em situações normais as nossas casas nunca estão próximas umas das outras, nem tão pouco pensamos em casas geminadas. Precisamente para evitar que por tudo e por nada se conheçam e se vivam os problemas particulares que, por natureza humana, se passam em cada lar. Conhecer e divulgar tais problemas é falta de respeito. «Ottittimihana Muluku orooruuha; anaphulu aniteexana ehirowaka otthu», isto é, «o respeito vem de Deus; os sapos carregam-se uns aos outros sem irem a lado nenhum» - diz o nosso povo.

Cultura do perdão
Isto encontra-se sintetizado no proverbio macua que diz: «Ntata nivanre mahirryaakhu khaninthikiliwa», isto é, «a mão que se sujou no excremento não se corta, lava-se». Querendo
com isto dizer que não se deve destruir o indivíduo que ofendeu a alguém, mas sim, criticá-lo ou mandá-lo pagar alguma indeminização, se for o caso, e reconduzi-lo ao bom procedimento social.

Cultura de reconciliação:
Quando dois indivíduos estão em litígio um com o outro, apresentam o problema em primeiro lugar aos familiares mais idóneos e influentes para o resolver, recorrendo a instâncias superiores somente em caso de não se ter conseguido soluciona-lo no primeiro nível.

Uma vez resolvida a questão segue-se a realização de um pequena cerimónia de reconciliação, na qual se toma uma refeição ou uma bebida em comum entre os familiares dos dois que estiveram
em conflito, devendo estes comer juntos no mesmo prato e beber na mesma cabaça, ou copo, e no fim apertar-se mutuamente as mãos em sinal de restabelecimento da harmonia que se havia quebrado.

Pequenas e simples estas cerimónias, mas de profundo e significativo valor moral. Se daí em diante algum deles demonstrar atitude de quem guarda rancor ao outro é condenado ao isolamento pela comunidade, como pessoa intolerante e sem compreensão pelas fraquezas dos seus semelhantes.
Cultura da paz
Paz com a família, com as outras pessoas e outros povos, sendo que por isso ao longo dos séculos da nossa vivência social nunca nos veio à cabeça o pensamento ou o desejo de ir conquistar, dominar e impor as nossas ideologias a quem quer que fosse. Pois que isso provocaria conflitos que estragariam a nossa paz e a dos outros.
(Prof. Alberto Viegas)

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